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Sente a vista cansada...
«Ora, não percebeis que com os olhos alcançais toda a beleza do mundo? Oh! Coisa admirável, superior a todas as outras criadas por Deus... Por causa dos olhos, a alma se compraz em ficar presa ao corpo, pois sem eles essa prisão seria uma tortura...»
Leonardo da Vinci enaltecia assim a importância da visão ou, para um artista, o "prazer de ver". No início de um novo milénio, a nossa cultura transformou-se de facto numa "civilização da visão" onde o cinema, a televisão e o computador comandam o trabalho, o lazer, a vida. O sistema visual do Homem moderno apreende e processa 90 por cento da informação consciente que chega ao cérebro.
A utilização intensiva da visão, o progressivo envelhecimento e o aumento da esperança de vida aumentaram a importância e incidência da mais comum
das alterações de visão - a "vista cansada", ou presbiopia. A presbiopia inicia-se entre os 40 e os 45 anos e aos 50 anos a incidência é de praticamente 100 por cento. Isto significa, por ano, cerca de 51 milhões de novos presbíopes no mundo; na Europa, 10 milhões de pessoas começam a ver mal ao perto em cada ano, e os números tenderão a aumentar. Além da idade, a vista cansada também depende, na intensidade com que se manifesta, de outros factores: por exemplo, os míopes sentem-na muito menos. A exposição excessiva aos raios ultravioleta poderá aumentá-la, mas a radiação emitida pelos ecrãs de computador, por si só, não parece ser factor de agravamento.
Nenhum medicamento se revelou eficaz no tratamento da Presbiopia. As lentes de contacto para correcção da presbiopia são pouco eficazes; são indicadas em hipermétropes e indivíduos já anteriormente utilizadores deste tipo de correcção, mas mesmo nestes casos a experiência nos EUA aponta para mais de 50 por cento de taxa de abandono.
Apesar do desenvolvimento da cirurgia refractiva assistida por laser, e do seu sucesso na miopia, hipermetropia e astigmatismo, as técnicas para correcção da presbiopia não se têm mostrado eficazes. Uma recente solução cirúrgica - implantes lineares intraesclerais - parece promissora. Assim, a única solução eficaz consiste no uso de correcção óptica para perto: lentes de perto simples, lentes bifocais ou progressivas.
Estão disponíveis em Portugal os chamados óculos pré-montados, ou seja, óculos de perto com as mais comuns graduações simples básicas para presbiopia e que se podem adquirir sem prescrição médica nas farmácias.
Do ponto de vista médico, económico e legal, a sua divulgação e venda, sem prescrição e fora das lojas de óptica, tem levantado controvérsia. Para os oftalmologistas, o aparecimento da presbiopia, sendo um fenómeno normal, representa uma oportunidade para avaliação oftalmológica e rastreio de doenças que afectam os olhos e cuja maior incidência coincide, em termos etários, com a progressão da vista cansada: por exemplo, o glaucoma, a retinopatia diabética e a catarata.
Mais importante, as alterações da visão para perto, causadas por estas patologias, podem confundir-se com a presbiopia. Estes argumentos são válidos clinicamente ou em termos de Saúde Pública oftalmológica. Os ópticos poderão dizer que não é correcto comprar graduações fixas e que a execução de prescrição óptica e respectiva venda é da sua exclusiva competência. Enfim, a venda em farmácias poderá apoiar-se na classificação destes óculos como "dispositivo médico" sem actividade terapêutica directa, o que os coloca próximos dos medicamentos de venda livre. A Academia Americana de Oftalmologia, talvez a mais importante associação oftalmológica mundial, considera a utilização deste produto aceitável do ponto de vista médico e vantajosa pela sua boa relação qualidade preço.
O presbíope "não simples", ou seja, já utilizador de correcção óptica, sem outra patologia significativa, deverá decidir-se entre visitar o óptico ou consultar o oftalmologista. Se já entrou na casa dos cinquenta, ou, antes disso, se tem doenças oculares, mesmo que seja apenas uso de óculos -atenção, por exemplo, à miopia elevada; se sofre de doenças crónicas como diabetes ou hipertensão...
é melhor não arriscar.
Presbiopia é uma palavra de origem grega que salva o oftalmologista de dizer à sua paciente de 42 anos que "os seus olhos estão velhos". Consiste na progressiva perda de função da lente ocular de potência de foco variável e do músculo que auxilia: respectivamente, o cristalino e o músculo ciliar. Isto significa que aos 25 anos a nossa capacidade de focar ao perto é de 14 dioptrias, o que corresponde a conseguir ver o ano em que foi feita uma moeda de um escudo a 10cm dos olhos; aos 45 anos baixou para apenas 4 dioptrias, o que nos faz sentir os braços curtos quando queremos ver o preço do tinto alentejano naquele restaurante fino e mal iluminado - e temos que afastar a lista para uns bons 35cm...
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