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Aconteceu um caso na família de um idoso com muitas décadas, actualmente a viver num lar, ter sido enviado para um hospital com alguns sintomas que justificavam a deslocação.
Este hospital já tem um historial de assistência a idosos da família, sendo este mais um.
A questão aqui é que já dos dois casos anteriores, houve coisas que ficaram um pouco "atravessadas" mas que se deixou passar porque, como são idosos, há coisas que saem da nossa esfera de conhecimento e se tornam difíceis de avaliar.
Porém, neste caso, o idoso foi parar à urgência de noite/madrugada, onde lhe deram alta, tendo sido o diagnóstico "intoxicação alimentar".
Na manhã seguinte (ou nessa mesma noite?), teve um AVC (acidente vascular cerebral), diagnosticado noutro hospital.
Como é lógico, estes acontecimentos e com esta sequência, para quem não percebe medicina, causam sempre alguma suspeição - o que acho perfeitamente natural.
Do pessoal do lar, chega a ideia que os idosos são "mal atendidos" e que o que aconteceu neste caso, acontece amiúde, entenda-se, "altas" com consequências nefastas.
Não é meu objectivo colocar em causa a competência de quem fez o diagnóstico ou de algum profissional mas, fico com a sensação de que muitos destes idosos são enviados para casa porque já não há muito a fazer... ou porque o pessoal médico não mostra grande preocupação com os mesmos, mais pela idade e pelo destino fatídico que os aguarda mais tarde ou mais cedo, uma espécie de desistência da vida de terceiros.
E com isto pergunto, será mesmo assim? Desistirão alguns profissionais de saúde de pessoas mais idosas só porque o são e porque, na maioria dos casos, não vale a pena o esforço?
Custa-me acreditar que assim seja mas, existirá um modo de actuar neste sentido não convencionado, aceite e tido como natural?
Não sei o que se passou no caso específico, portanto não posso defender ou acusar (apesar de achar estranho se tiverem "despachado" um AVC como intoxicação alimentar, porque os sintomas não têm muito a ver uns com os outros), sobretudo porque maus profissionais e erros pontuais existem em todo o lado, infelizmente.
Genericamente lidar com os idosos é complicado. Regra geral coexistem inúmeras patologias cujos sintomas se sobrepõem, anulam ou modificam, tornando às vezes difícil reconhecer certas patologias. Também a realização de certos exames se torna complicada, quer pela falta de colaboração, sobretudo quando existe um certo grau de perda de capacidades cognitivas, quer pela fraca resistência física. A própria obtenção da história clínica é extremamente difícil se o idoso não colabora. Isto é ainda agravado em muitos idosos que se encontram em lares, muitas vezes com más condições que os deixam ainda mais debilitados e sob a sombra do abandono da família. Diversas patologias possuem mesmo um limite máximo de idade a que se trata, uma vez que o benefício que o tratamento pode trazer não justifica o risco acrescido de correr mal, o sofrimento que eventualmente poderá causar, na busca de um ligeiro aumento da esperança de vida (muitas vezes a custo de uma péssima qualidade de vida nesses anos).
A situação das altas, mais uma vez apenas falando genericamente, também é muitas vezes injusta para os hospitais. Os serviços de medicina interna, actualmente "depositório" de muitos idosos, não devem ser as instituições responsáveis pelo acompanhamento 24h/dia de doenças crónicas ou agudas sem tratamento possível. Não possuem camas suficientes para isso. O verdadeiro culpado disto é a falta de uma boa rede de cuidados continuados e de medicina paliativa. Cuidar pontualmente, que deve ser a principal função dos hospitais a nível de internamento, não chega.
A isto soma-se o facto do hospital ser, provavelmente, dos piores sítios onde uma pessoa pode estar. As taxas de infecções hospitalares são assustadoramente altas, mesmo com os níveis elevados de combate à infecção existentes hoje em dia, e afectam sobretudo os mais debilitados. Posto isto, é realmente importante que um doente apenas permaneça no hospital o tempo mínimo necessário, sob pena de "sair pior do que entrou". Claro que esse tempo mínimo necessário acaba muitas vezes por ser discutível, ainda que quase exclusivamente quando a coisa corre mal, e aí entra a experiência do médico, a sua competência e, diria mesmo sob pena de estar a ser extremamente anti-científico, um pouco da sorte também.
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